Nosztalgia Budapesht


A primeira vez que degustei um Tokaji foi um Aszú Eszencia 1983 no Encontro Internacional de Vinhos do Espírito Santo 2001 em Pedra Azul. Ainda tinham o óbvio Chateau D`Yquem, o Quarts de Chaume 1989 de Domaine des Baumard, Noblesse (Petit Manseng) de Domaine Cauhapé, um Wachenheimer Mandelgarten Trockenbeerenauslese 1989, e para não deixar de fora os italianos o Renobilis Recioto Gini 1996, os nobres do doce. Desses, os que me acompanharam por muitos anos em casa ou em degustações em Pedra Azul foram os incontáveis Tokaji Aszú e Chateau d’Yquem. Hoje conto a minha busca por uma taça de Tokaji Aszú em Budapest.

Bortodoor - drink the losses

Numa corrida contra o tempo, procurei onde poderia degustar Tokaji Aszú sem comprar uma garrafa, pois a companhia aérea econômica não me permitia levar líquidos. Se vier ao país do Néctar Imortal em uma melhor condição, digamos assim, recomendo comprar os vinhos no ‘Bor’ Bortársaság na rua Ráday (Bor significa ‘vinho’ em húngaro). ‘Bor’ é uma pequena enoteca, com ricas opções como Oremus e Szepsy para levar para casa. Para uma experiência dos sentidos recomendo o bar enoteca Bortodoor com uma programação descolada na rua Zichy Jenő em Terézváros, ao lado do bairro judeo Erzsébetváros. A atenção especial vai para às quartas do ‘Wine Mafia’ com sua degustação às cegas, quintas temáticas e domingos para degustar o que sobrou da semana com ótimos preços do ‘drink the losses’ e se chegar cedo ainda ganha uma taça de espumante. 

Enquanto procurava por apenas um gole de Tokaji Aszú, percebi que Budapest é cheia de surpresas, tudo que é inusitado pode acontecer nessa cidade. Voltar ao tempo assistindo um balão de ar estilo 1800 com listras brancas e vermelhas sobrevoando a cidade, descobrir um museo do vinho e da uva Húngara dentro de um castelo, tomar um susto com a estátua do Anonymus, brincar com os garotos da rua Pal, ver bananeiras no jardim ELTE Füvészkert, girar 360 graus nos bares ruínas, relaxar nos banhos turcos, pegar o metrô nas estações antigas, olhar a fachada do Corinthia Hotel Budapest, visitar o museu Swack, almoçar no subúrbio, comer um bolo de nozes na padaria Lipóti, comprar páprika, caminhar ao longo do rio Danúbio, atravessar as pontes para Buda, admirar a decoração Art-nouveaux, procurar a Magyar Radio e encontrar um Tokaji Aszú 1956. 

Para os mortais restam a dúvida entre Buda ou Peste e o contentamento com o puttonyos 5 ou 6. Para os imortais deixemos o Eszencia, então entitulado ‘bebida dos deuses’ pelo jornal Magyar Kurír 1790. Para mim, fica uma Budapeste de pura nostalgia de algo que também não se viveu.


Que só o cheiro fazia a morte fugir.

Para um homem doente, assim que ele começou a beber

Ficou curado, embora estivessem prestes a levá-lo embora.

Mas ele bebeu um pouco

Pois seu bolso sempre teve medo

A bebida dos deuses é um néctar imortal

Pois é o fruto de um horizonte abençoado.

(Magyar Kurír 1790 - traduzido por mim)


12/08/2023

Isabelle Tabacchi

sottospiritus@gmail.com